
O que está deixando elas tão excitadas, na minha opinião, é o fato dele não dá nem as horas pra elas. O cara é fechadão.
Ele é visto, do apê da Liza – onde as garotas se reúnem – só de short, se exercitando, com seus halteres. Nada disso me diria respeito, se não tivessem levado Betina, num sábado desses, para conferir se tinham ou não razão. Bem, não sou um cara ciumento, mas gosto de cuidar do que é meu. Ôpa! Não me julguem mal, não sou dono da Betina, sou normal como todo namorado... È claro que teve aquele lance da Laurinha, mas já passou. Agora somos todos amigos.
Dia desses, quando eu, Ishiro e Liza, voltávamos da academia onde eu e Ishiro, treinamos Tae Kwon Do, e Liza faz aeróbica, topamos com...”Apolo de Ébano”. Ele demonstrou interesse ao ver nossas roupas, mas relutou em interpelar-nos. Como tenho facilidade quando o assunto é comunicação, convidei-o para um bate-papo.
Liza, ficou eufórica, dei-lhe um beliscão, e ela se conteve.
Difícil, foi segurar o riso, quando ele nos disse seu nome: Apolônio. Seguramos. Mas ficou explícito que havia algo no ar. Ele falou desconfiado: “Sei que meu nome é feio, mas vocês estão com umas caras...”

Não ia deixá-lo com aquela má impressão, apesar dos apelos velados da Liza, informei-o que estava sendo chamado pelas garotas de...Ah! vocês já sabem!
O cara ficou bolado. Não acreditou. Ele não tinha a menor noção do sucesso que andava fazendo. Gostei disso!
Meio sem jeito, contou que veio do sul e lá as coisas não eram nada fácil para um negão. Não me crucifiquem... só estou repetindo as palavras dele!
Seu pai, depois da aposentadoria, escolheu morar no nordeste, por andar farto de tantas discriminações.
Apolônio, contou-nos um caso ocorrido na juventude do pai, que na época trabalhava com pesquisa de mercado. Ele gozava da simpatia de uns figurões, que o chamaram para receber uma homenagem por sua ótima atuação em um trabalho premiado. Haveria um jantar num restaurante muito famoso e logo na entrada , sofreu um constrangimento que se fosse hoje, seria caso de polícia: foi barrado por causa do cor. Não houve jantar, muito menos homenagens. Bela atitude daqueles figurões sendo solidários!
Seu Edmundo, pai do Apolônio, tomou uma resolução: voltou a estudar. Concluiu o curso de Engenharia Civil, e com louvor! Passou num concurso púbico em primeiro lugar, garantindo assim seu emprego. Se fosse hoje, sua frase seria: “Vocês vão ter que me engolir”.
Pra proteger a família, comprou uma chácara meio afastada do centro e trouxe do nordeste dois de seus irmãos com suas respectivas famílias para trabalhar na terra. Formaram uma espécie de comunidade mas com isso isolou os filhos, conviviam quase que exclusivamente com os parentes.
Não sei se isso foi bom não... Quando iam ao mercado comercializar os produtos da chácara, aí é que chamavam a atenção mesmo.
Voltando para o Apolônio, agora Apolo, já que o apelido é bem conveniente (e eu não me sentiria mal em chamá-lo assim), fez faculdade de Educação Física, é refinado, gosta de leitura, teatro, cinema, e está procurando emprego. Queria saber se havia possibilidade de trabalhar na academia que frequentávamos. Uma idéia me ocorreu: “Porque não monta a sua própria academia ?” - propus - “sua casa tem um espaço legal na laje”.
Ele se animou, tinha uma grana reservada suficiente para levar adiante esse projeto.
Eu me prontifiquei a ajudá-lo nesta empreitada.
“As garotas vão ficar me devendo essa...”
Outro dia, Apolo me procurou, não para falar da academia, mostrou-me uma carta anônima recebida dias antes.
“Carta anônima? Voltamos no tempo?” Só que, com Apolo, isso era até natural, a própria vida dele estagnara numa cidadezinha rural, no sul do país.
A carta continha uma declaração de amor e algumas indicações sobre a emitente, tipo seremos café com leite, feijoada com arroz branco, yin e yang. Eu bem desconfiei de quem se tratava...
Ele afirmou não estar afim de complicação. Deu pra perceber que esse cara tinha profundas marcas relativas ao preconceito. De onde veio a predominância eram olhos azuis e cabelos platinados. Teve muitas dificuldades com os relacionamentos.
Estávamos diante de um caso mais radical. Seria necessário uma profunda desconstrução. E eu não fujo de um bom desafio.
Andei com Apolo pelas ruas do centro da cidade. Aqui nós descendentes dos escravos africanos somos maioria. Mesmo assim, ele continuou chamando atenção, mas por seu porte altivo, seus bons modos e porque não dizer, sua beleza negra. Então fomos ao maior de nossos shopping centers. Aí é que o bicho pegou! Cheguei a pensar que estava acompanhando uma celebridade. Caramba! Eu deveria ficar preocupado? Esse cara provocava uma reação desconcertante.
Sentamos na praça de alimentação, foi um tal de olhares provocantes, recadinhos trazidos pelos garçons, de todo tipo de mulher. Ele ficava cada vez mais cismado. Pelo jeito, quase não teve namoradas.
É, mas agora, Apolo não teria como escapar. Estava aberta a temporada de caça.
Bem vindo ao mundo dos mortais Apolo!
Com a chegada de Apolo, muitos acontecimentos irão se desencadear. Mas antes, vou apresentar uma mulher muito doida meu! Na boa, ela é minha amiga, mas é atrapalhada...Vocês vão ver só! Até!

0 comentários:
Postar um comentário